Saturday, July 22, 2006

O Coronel Valentino e Marina V

O coronel Silva criava e vendia gado bovino e suíno, e plantava laranja, soja e café. Naquele tempo não havia caminhões, então ele distribuía sua produção através da ferrovia. As companhias ferroviárias dependiam de concessões do governo estadual, que cobrava frete, e como a única linha ferroviária a disposição passava por três estados, o coronel Silva tinha que pagar frete três vezes, o que acabava encarecendo muito sua produção.
Ele tinha um projeto, junto com os coronéis da região, de criar outra linha ferroviária. Para isso, precisavam da ajuda do governo federal, além do governo do estado dele. Negócios e política, política e negócios...
Valentino, o secretário, ficava lendo para o coronel cego vários tipos de documentos: cartas para os outros coronéis, cartas para os políticos, cartas para as companhias ferroviárias, pareceres técnicos de engenheiros, declarações de políticos, convites para festas e reuniões ( "A Marina teim qui istudá pra si prepará pra tais festas." - dizia o coronel Silva para o Valentino - "Lá, ela num vai cunvivê cum roceras, mais cum as filhas dus otrus coronéis qui sabeim muitu mais qui ela. Ela teim qui intender qui temus cumprumissus sociais, Valentino." ), etc.
Um dia, quando o Valentino estava lendo para o coronel Silva uma carta do governador do estado, a Marina entrou feito um raio dentro do escritório do pai. O Valentino se assustou com o rosto dela: vermelho de raiva, molhado de lagrimas, com a boca dura, rangendo os dentes... e ela ainda respirava ofegantemente. Nesse estado, ela avançou para o pai dela e gritou:
- PAPAI, VOCÊ DEU ORDEM PARA O PAULO FAZER ALGUMA COISA COMIGO?
O coronel e o Valentino pararam o que estavam fazendo por causa da Marina. Eles já sabiam o que era: mais uma discussão por causa da Daniella. A Marina tremia de raiva.
- U qui é issu, mocinha? Eu e u Valentino istamus trabaiandu...
- E O PAULO ME BATENDO! - gritou a Marina, com as duas mãos esfregando as nádegas... - E SEM ORDEM SUA!
O coronel ficou quieto. Cego, de postura firme, ereta, ele ia pedir explicações para a Marina, quando o Paulo entrou gritando também:
- BATI E BATO DE NOVO! E NÃO VAI SER DE MÃO NÃO, VAI SER DE CHINELO! DE CINTO! DE CHICOTE!
- E FOI POR CAUSA DESSA DANIELLA, PAI!
Os dois irmãos começaram a discutir aos gritos, quando o coronel falou, tirando a cinta:
- Já chega! Si algueim mais gritá eu batu! Podi sê homim ô mulê!
Os dois ficaram quietos, e o coronel Silva pediu explicações. Aí o Valentino puxou uma cadeira para cada um, sendo que na da Marina ele, prevenido, já tinha colocado uma almofadinha, pois as nádegas dela deviam estar muito doloridas. O Paulo era forte e tinha a mão dura, cheia de calos, de moço valente mas trabalhador que ele era.
- Lembra do que eu disse quando a Daniella apareceu, coronel? "Ela vai dar problemas". - disse o Valentino ao coronel Silva.
- I cê acertô, Valentino...
* * *
Primeiro, o coronel Silva interrogou à filha. O que ela tinha feito ou dito para deixar o Paulo bravo com ela? E que ela falasse sem gritar nem chorar!
- Eu só disse a verdade, pai. Que a Daniella faz o mano de palhaço, debocha na cara dele, zomba do jeito da gente falar, zomba dos nossos costumes... - e rangendo os dentes de raiva, a Marina continuou - e quando o Paulo tenta falar do jeito dela, para agradar, aí ela ri de debochada e o Paulo pensa que rir por se agradar com ele! Não agüento isso, fui abrir os olhos do Paulo e ele me bateu!
- Você foi é se meter onde não é chamada, Marina! Pensa que não sei que você tem é inveja porque ela foi educada na capital e ciúme porque eu estou gostando dela? Gosto dela sim, é uma moça muito prendada, muito bonita e tenho pena dela ser desamparada, sem mãe e com o pai inimigo dela!
- Então pai, está certo isso? - perguntava a Marina, tremendo de raiva e enxugando as lágrimas - ele me bater porque falei a verdade? Porque disse que a Daniella faz ele de palhaço e vive empinada, achando que o mano a qualquer hora será dela?
- Você sabe como a Marina é desaforada, pai, e sabe que quando ela está brava esquece quem é mais forte, e parte pra cima provocando e atacando...
* * *
Naquele dia, o Paulo tinha ido pesquisar o livro de pronuncia que o Coronel Silva arrumara para o Valentino. Ele bem sabia que errava muito na pronuncia de algumas palavras mais difíceis, e queria corrigir isso. No fundo ele sabia que a irmã, por desaforada que fosse, tinha razão: a Daniella caçoava dele. Ele sofria calado, não comentava nada com ninguém, e fingia não reparar o deboche da mulher amada... mas por dentro ele sentia vontade de se matar! Porém, tinha esperanças de corrigir seu forte sotaque regional. A Marina não falava parecido com a Daniella? O Valentino não tinha sido um roceiro, depois bandoleiro, e agora, ele não falava feito um doutor? E tanto o Valentino quanto a Marina treinaram a pronuncia com o livro que o coronel Silva comprara para eles...
O Paulo foi até a biblioteca, onde deu com a Marina. Ela estudava emburrada, como sempre, e o Paulo leu um trecho do livro, ensaiou uma frase, esqueceu que a irmã estava na biblioteca e falou alto, bem afetado, gaguejando em algumas palavras difíceis, e suspirando pela Daniella...
- NÃO É POSSIVEL QUE VOCÊ NÃO VEJA QUE É O MACACO DESSA DANIELLA!
Os gritos da Marina surpreenderam o Paulo. Ele viu a irmã olhando para ele com a maior cara de brava... então ele saiu e levou o livro consigo. A Marina foi atrás.
- Seu besta, ela vive mangando de ti! Qualquer um pouca coisa mais esperto que você sabe que ela quer é ti fazer de palhaço! Meus Deus, ela rir esnobe para você e você pensando que está agradando! Acorda Paulo, que ela vai é te levar pelo nariz, feito moleque, vai é te por coleira, feito cachorro...
- Chega, Marina! Para com isso!
Mas o que da Marina parar! Ela fez foi ir atrás do Paulo, falando, brigando, discutindo... O Paulo pôs as mãos na cabeça, tentava se controlar, e quanto mais nervoso ele ficava mais a Marina o perturbava...
Numa hora Paulo disse:
- Marina, eu já te bati uma vez e posso bater de novo!
- Antes você era um homem, Paulo, agora é um cachorrinho da dondoca!
Com isso Paulo se virou e encarou a irmã. A Marina olhava para ele com uma expressão de desafio. Nessa hora ela torceu a boca com desprezo e empinou o narizinho, imitando a Daniella, quando esta troçava do Paulo. Foi demais.
O Paulo pulou em cima da irmã e os dois caíram em cima de um sofá. O Paulo, segurando a irmã que gritava, sentou no sofá, deitou ela de bruços no colo dele, e PLAFT, nas nádegas da Marina...
PLAFT, PLAFT, PLAFT...
O Paulo segurava ela pelas pernas, o que tornava mais difícil ela escapar. A Marina ainda tentou se proteger da surra tampando o traseiro com a mão, mas as palmadas em cima da mão doíam mais e ela então passou a usar as duas mãos para tentar escapar.
PLAFT, PLAFT, PLAFT...
A Marina gritava, xingava, se sacudia... mas estava bem presa. O Paulo a mantinha segura... a Marina usava uma saia folgada, mas muito fina, como sempre quando ficava em casa, pois se sentia mais a vontade assim. Esta saia não a protegia muito das palmadas, ainda mais tendo ela um traseiro grande e redondo...
PLAFT, PLAFT, PLAFT...
A expressão séria e resoluta do Paulo davam a impressão que ele nunca iria se cansar - e irritava ainda mais a Marina. Quanto mais ela apanhava mais ela xingava e se mexia, porque nada enfurece mais uma pessoa passional, e a Marina era muito passional, do que a calma dos outros quando brigam com ela. E o Paulo, calado e sério, batia cada vez mais, sempre frio e determinado...
PLAFT, PLAFT, PLAFT...
- AI PAULO, PARA COM ISSO! Seu idiota... AI... eu só AI... falei a AI... a verdade... AIIIIIII... VOU CONTAR PRO PAPAI!
- Vou - PLAFT na nádega esquerda - parar - PLAFT na nádega direita - quando - PLAFT na nádega esquerda - achar - PLAFT na nádega direita - que - PLAFT na nádega esquerda - você - PLAFT na nádega direita - já foi - PLAFT na nádega esquerda - castigada - PLAFT na nádega direita - o bastante - PLAFT na nádega esquerda - Marina!
E essa foi a única frase do Paulo durante a surra. E a Marina gritando, chorando, xingando... e o Paulo: PLAFT, PLAFT, PLAFT...
Até que parou. Enfim! E levantou a Marina do colo. Ela olhava para ele esfregando as nádegas, tremendo de raiva, rangendo os dentes. Quando a Marina encostava as mãos nas nádegas fazia uma careta sentida, mas engolia o choro, não iria dar este prazer ao Paulo... E ele começou um sermão:
- Uma coisa vai ficar bem clara nesta casa, Marina! Eu e a Daniella...
Foi ouvir o nome Daniella que a Marina saiu correndo da sala onde eles estavam para ir até o escritório do pai deles, onde estavam trabalhando o Coronel e o Valentino.
Ela foi mesmo contar para o papai...
* * *
A Daniella certamente não imaginava que haveria tanta briga na casa do coronel Silva, quando o advogado a aconselhou a ir para a terra da mãe dela.
Depois que a irmã Mirian a levou para falar com o advogado, este ouviu as explicações, leu os documentos, consultou os autos, analisou a situação da Daniella, que não podia mais ficar no internato e tinha que se virar, e afinal disse:
- Senhorita, pelas minhas pesquisas a sua mãe é de uma família rica no interior, e seu pai é um grande latifundiário. Eles a abandonaram na capital, e a iludiram, fazendo a senhorita crer ser uma órfã. Penso que a senhorita tem direito a uma indenização.
- Ah, doutor, eu não posso pagá-lo... não sei se o senhor pode examinar isto para mim de graça...
- Não de graça, combinaremos uma comissão se a senhorita ganhar a causa... mas de qualquer modo, eu faço isso pela amizade da irmã Mirian e porque a situação da senhorita é comovente...
Na verdade, o advogado queria arrancar dinheiro do coronel Souza. O pai da Daniella era muito rico, ele certamente teria que pagar uma grande indenização para a filha, se esta o processasse... e talvez ele pudesse entrar em acordo com o coronel, trabalhar para Daniella perder o processo... se fizesse as coisas direito e ganhasse o processo, ele ganharia uma comissão. Se trabalhasse para o Coronel Souza ganhar o processo, ele receberia um bom suborno. A ingênua irmã Mirian não sabia que tinha levado a querida aluna para um vigarista, mas este vigarista também não sabia que estava levando a Daniella para encontrar o amor... mas não vamos nos antecipar.
A conselho do advogado, a Daniella entrou em ação contra o pai. E o Velho Coronel Souza um dia recebeu uma intimação dizendo que ele deveria comparecer a uma audiência em certo dia, em certa comarca, etc.
O advogado vigarista, porém, não sabia como era a justiça no interior do Brasil. As autoridades nunca ousavam ir contra os coronéis. Eles, na verdade, nomeavam as autoridades. E o Juiz, como todas as autoridades locais, era nomeação do velho Coronel Souza. Quando o advogado apareceu lá para desenterrar esta história e iniciar o processo, o juiz logo avisou o Coronel Souza, que instruiu o juiz para que ele atraísse a Daniella e seu advogado.
O juiz então intimou a Daniella a comparecer naquelas bandas. E no dia marcado a Daniella apareceu na estação de trem, se encontrou com o advogado, e no caminho para a cidade onde o processo corria foram emboscados pelo terrível jagunço Florisvaldo. Florisvaldo matou o advogado e mais três pessoas que estavam com eles, e levou a Daniella para a cabana dele, onde esperaria o coronel Souza. A moça muito chorava sua sorte, já se imaginando arrombada pela tropa de Florisvado, e depois açoitada até a morte pelo pai... Mas o destino acabou sendo bondoso com ela: o Bento Picão aparecera com Paulo e Mauro, os filhos do Coronel Silva, e depois de dura luta acabaram por matar Florisvaldo e pegaram a Daniella.
E ela acabou por ir parar na fazenda do Coronel Silva.
Desde o começo se impressionara com a valentia do Paulo, e como ele havia ganho facilmente do perigoso Florisvaldo. E desde o começo sentiu que o Paulo ficava nervoso e perturbado perto dela. A Daniella, órfã desamparada, acabou decidindo que talvez fosse uma boa idéia se aproveitar do Paulo. Afinal, ela estava em má situação, sem mãe, com o pai inimigo dela, e sem bens... o Paulo, apaixonado por ela e sendo um bugre sem instrução, podia ser muito útil.
Quanto ao Paulo, demorou, mas ele acabou descobrindo que um remédio bom para uma mocinha enjoada da roça, a Marina, também é bom para uma mocinha empinada da capital, a Daniella, como veremos depois...

2 comments:

Selma Rodrigues said...

A história tem continuação? E o começo, as partes I, II e III?
Onde posso ler a história completa???

João Palmadas said...

Oi Selma, eu te adicionei no google +

Sim, têm as pastes I, II, III, IV, V e VI. Mas eu ainda queria revê-las. Se voce quiser, eu mando essas partes para o seu e-maii. Mas é melhor voce me deixa seu e-mail por aqui.

Beijão,
João Palmadas